#64

a mudança

 

 

 

acho que nunca falei por aqui sobre a minha mudança pra sampa. acho que nunca quis pensar sobre essa decisão que, repentinamente, mudou a direção de um cara que, no início da faculdade, tinha certeza de que não se renderia ao clichê “o mercado está em são paulo”. mas a vida não liga muito pras nossas certezas. eu também tinha certeza de que me tornaria professor universitário, teórico da comunicação, com mestrado e doutorado. era o caminho óbvio do monitor e bolsista de teoria de comunicação. não, não foi.

 

 

conheci a redação publicitária e coloquei na cabeça que tinha que viver o mercado. desde então, morri um pouquinho todo dia por cada agência que passei. não é drama. foi consciente, voluntário. é pra virar noite, a gente vira. trabalhar sábado e domingo, bora. ganhar pouco faz parte. tem que roer o osso para um dia comer o filé. mas o mercado do rio já não me dava nem  tesão, nem a visão de que algo poderia melhorar.  cansei de ouvir “o seu portfolio é bom, gostamos de você, mas só podemos oferecer r$1500”. na última vez, cansei. você se sente um merda. ou otário. ou os dois. e isso não é legal.

 

 

após 7 meses, sou um cara diferente. normal. por todos os motivos. desde as dívidas à solidão. desde a faxina aos museus, parques e feiras. desde a saudade à saudade, de quem vem quando vai, de quando vou e volto. e assim vou mudando. os conceitos, os desejos, as maneiras de alcançar o que quero, ao mesmo tempo em que tento redescobrir o que, de fato, quero.

 

 

sei que vim pra cá ouvindo esperanza spalding. hoje, ouço dizer que “é necessário voltar ao começo. quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo.”

 

 

só não consigo entender do que se trata o tal começo.


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