#56

entre o caos e os caôs

sou cidadão fluminense, embora não seja torcedor do clube homônimo. passei os últimos 31 anos morando na mesma rua, em um bairro tranqüilo e consideravelmente seguro da cidade de niterói. era o tipo de cara que falava com os porteiros de todos os prédios, os funcionários da padaria da esquina me tratavam pelo nome, assim como o jornaleiro, que me viu crescer. digo era, pois, há cinco dias, moro em são paulo. a mudança veio em função da profissão. tive medo de vir morar na capital econômica do país, embora quisesse muito. me surpreendi e digo: cariocas, esqueçam tudo o que ouviram sobre esta cidade. venham, vejam e vençam o preconceito que nos alimenta desde os primórdios. são paulo é um lugar maravilhoso, com defeitos e qualidades, mas recheado de oportunidades. se o cristo recebe quem chega no rio de braços abertos, aqui, a cidade inteira te recebe dessa maneira, desde que você venha disposto a tentar compreendê-la e encará-la. aqui não é o rio, o rio não é são paulo e ponto. as comparações são burras. e digo mais: ao que parece, a resistência entre cariocas e paulistas tende a ser muito unilateral, haja vista que fui muito bem recebido. e eu disse muito bem recebido. mesmo.

mas o intuito desse texto não é enumerar os fatos que me fazem enamorar sampa.

quero falar da cidade que adotei aos 15 anos de idade, quando fui estudar na escola técnica federal de química, no bairro do maracanã, zona norte do rio de janeiro. mais que isso, quero falar das muitas atrocidades que tenho visto, ouvido e, principalmente, lido acerca dos últimos acontecimentos. a tv não se cansa de transmitir ao vivo a morte do rio de janeiro que já não continua lindo, continua sendo, fevereiro e março, alô, alô terezinha, aquele abraço.

o sensacionalismo reverbera o medo, potencializa o caos e cria caôs, em meio à circulação circular da informação. o mau está lá. Sim, de fato. lá, aqui e em qualquer lugar, em maior ou menor intensidade. só não compreendo o quanto a audiência justifica a isenção de verdade, ou a criação de falsas verdades, no que é passado pelos meios de comunicação.

mas ainda não cheguei ao ponto que mais me incomoda. e aí, falo do discurso pseudo-moralista dos senhores da verdade que, nessas horas, estão sempre de plantão. vejo através do twitter uma enxurrada de acusações aos usuários de drogas, como se estes fossem os verdadeiros e ÚNICOS culpados da violência urbana. quem me conhece, sabe o quanto defendo o plantio caseiro da cannabis como forma de se diminuir as conseqüências violentas do tráfico. concordo com todos, e eu disse TODOS, os argumentos que colocam o usuário de drogas como um fiador da violência. mas, sinceramente, é difícil acreditar que estes mesmos usuários sejam os ÚNICOS culpados por toda essa situação. mais difícil ainda é ver pessoas as quais considero inteligentes discursarem com esta bandeira.

engraçado como estas mesmas pessoas que acusam os usuários de drogas como os grandes vilões da história, exaltam jogadores de futebol que, com muito mais facilidade, financiam os mesmos traficantes de quem estamos falando. engraçado como estas mesmas pessoas que crucificam os usuários de drogas pedem votos praquele amigo que se candidatou a um cargo político, esperando receber em troca alguma benesse. engraçado como estas mesmas pessoas que apontam culpados de forma online e offline, acham natural fugir de uma multa de trânsito utilizando o twitter. tolinhos…

os usuários de drogas têm uma GRANDE parcela de culpa, sim! algo precisa ser feito para resolver esta situação, sim! mas a hipocrisia não vai curar nada. olhe pro seus atos e tente buscar alguma relação com o caos instaurado não só no rio de janeiro, mas também no país. grite também contra a falta de educação de qualidade para as camadas menos favorecidas economicamente, contra a ausência de condições nos serviço público de saúde, contra os altos impostos que dificultam a geração de empregos, contra a politicagem vergonhosa que rege o nosso país. motivos não faltam para a situação ter chegado neste ponto, mas isso não te atinge diretamente, né? pelo menos é o que você pensa. caso contrário, continue acreditando que, se eu parar de fumar meu baseado, a violência vai terminar, como se os traficantes fossem pensar: “é, a galera parou de usar drogas, vou ter que fazer um currículo e procurar um emprego agora”.

lembre-se: um dia a escravidão terminou, mas não deram empregos pros ex-escravos e esta população foi colocada à margem da sociedade. um dia a ditadura caiu, mas a população não foi educada pra viver a democracia e, hoje, palhaços analfabetos e ex-presidentes corruptos são eleitos. exemplos de “males sociais” extintos não faltam, tanto quanto os problemas que ainda perduram.

pode continuar achando que o cerne da violência urbana é UNICAMENTE o usuário de drogas. pode sonhar, mas o pesadelo tende a piorar.


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